Prémio Nobel da Literatura 2017

Prémio Nobel da Literatura 2017

Kazuo Ishiguro

autor, entre outros, de Os despojos do dia e Nunca me deixes


quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Nós matámos o Cão-Tinhoso, Luís Bernardo Honwana

 
  
   O que fazer quando perdemos o livro que estamos a ler?
    Estive há um mês em Maputo e fui a algumas livrarias à procura de livros da Paulina Chiziane. Tinha falado desta autora  a duas colegas brasileiras que ficaram interessadas, mas não conseguimos encontrar nenhum livro porque, segundo nos disseram, tinham muita procura e esgotavam rapidamente.
    Procurei por outros autores moçambicanos e falaram-me de Luís Bernardo Honwana, que há mais de 50 anos escreveu o livro Nós matámos o Cão-Tinhoso e que agora publicou um novo livro A velha casa de madeira e de zinco. Lembrava-me de ter ouvido falar do primeiro livro dele embora nunca o tivesse lido e decidi comprá-lo. Dos sete contos, li apenas o primeiro que dá justamente o nome ao livro e depois perdi-o. Sei que há edições portuguesas e que não deve ser difícil encontrá-lo, até porque integra o Plano Nacional de Leitura. Mas eu queria mesmo era aquele livro, aquela edição.

    É fácil perceber a perenidade ou, pelo menos, a longevidade deste livro. A edição moçambicana tinha um prefácio e uma lista extensa de bibliografia publicada sobre o livro, em particular sobre este conto. Depois de concluir a leitura li alguns artigos publicados sobre esta obra e o seu autor. A história é simples: o narrador, Ginho, conta como mataram o cão tinhoso. O cão que, para além de tinhoso, era velho, decrépito e fazia barulho com os ossos quando andava, tinha olhos azuis. Já ninguém - nem mesmo os outros cães - lhe ligava, apenas Isaura, que não era muito boa da cabeça, o protegia e o alimentava. Um dia o administrador fala com o veterinário para que o mande abater e ele diz a um grupo de miúdos para matarem o cão tinhoso. Há quem veja no cão tinhoso o país colonizador, Portugal, que no final é abatido por todos. Tenho alguma dificuldade em partilhar este entendimento. O cão tinhoso é quanto muito o país colonizado, Moçambique. Então sofrido e maltratado.
   Mas eu penso que o mais significativo no livro é a relação entre os jovens, o domínio de Quim sobre os demais, que resulta das respetivas raças:
 (— Deixa lá, é preto e basta, deixa lá... Bem, malta, o cão não sai daqui e a gente vai cada um para a sua casa buscar as armas e depois levamo-lo para a mata atrás do matadouro e damos cabo dele, óquêi?
(...) 
— Fora daqui, negralhada, fora daqui cabroada escura!Isso era o teu avô, meu labreguinho ordinário! Nunca te contaram isso lá na tua aldeia? Seu maguerre!...
— Monhé! Filho de um corno!
— Eu estou com medo — custou-me dizer aquilo porque mais ninguém estava com medo, mas foi melhor assim — Eu estou com medo, Quim...
— Eh, malta, vocês nunca me viram a matar um preto?)
    E por fim, o mais impressionante, é o facto de Quim, o líder, forçar o Ginho, que não quer matar o cão, a dar o primeiro tiro. 
    O livro foi escrito na prisão, mas surpreende sobretudo que tenha sido escrito por alguém muito jovem porque consegue transmitir a imensa angústia de Ginho e de Isaura e o pavor do cão tinhoso perante a morte e o desdém dos restantes perante o medo e  tristeza.

(A capa do livro que perdi era diferente desta. Se alguém o encontrar, espero que o aprecie.)

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Confissões da leoa, Mia Couto (Caminho)

     
    O livro começa assim:
    Deus já foi mulher. Antes de se exilar para longe da sua criação e quando ainda não se chamava Nungu, o atual Senhor do universo parecia-se com todas as mães deste mundo. Nesse outro tempo, falávamos a mesma língua dos mares, da terra e dos céus. O meu avô diz que esse reinado há muito que morreu. Mas resta, algures dentro de nós, memória dessa época longínqua. Sobrevivem  ilusões e certezas que, na nossa aldeia de Kulumani, são passadas de geração em geração. Todos sabemos, por exemplo, que o céu ainda não está acabado. São as mulheres que, desde há milénios, vão tecendo esse infinito véu. Quando os seus ventres se arredondam, uma porção de céu fica acrescentado. Ao inverso, quando perdem um filho, esse pedaço de firmamento volta a definhar.  
    Um início extraordinário que o resto do livro não desmerece. Difícil foi parar de roubar frases, de as saborear. Foi por isso que levei tempo a lê-lo.
    Como o autor explica, este livro tem por base a história real da contratação de caçadores para matarem leões que tinham atacado várias pessoas no norte de Moçambique. Para além da caça, os caçadores tiveram de lidar com a convicção dos locais que os leões eram habitantes do mundo invisível, mas, aos poucos, aperceberam-se que a situação resultava de conflitos sociais  aos quais não podiam acorrer. Arrisco a dizer que a história por trás da história é a denúncia da imensa violência exercida sobre as mulheres. Com uma escrita poética, o que parece quase um paradoxo:
    Porque, a bem ver, nunca cheguei a matar ninguém. Todas essas mulheres já estavam mortas. Não falavam, não pensavam, não amavam, não sonhavam. De que valia viverem se não podiam ser felizes.
(...)
    Foi melhor que essas meninas nunca tivessem crescido. Porque elas só se sentiriam vivas na dor, no sangue, na lágrima. Até que, um dia, de joelhos, pediriam perdão aos seus próprios carrascos.
     O livro é escrito a duas vozes, ou em duas versões, a de Mariamar, jovem mulher da aldeia de Kulumani, a única sobrevivente de quatro irmãs, e a do caçador, Arcanjo Baleiro, que chega a Kulumani acompanhado de um escritor.
    Mas não é apenas em Kulumani que as mulheres sofrem (acordávamos de madrugada como sonolentos soldados e atravessávamos o dia como se a Vida fosse nossa inimiga.), também olhando para a mãe, Arcanjo Baleiro, o caçador, diz que no rosto dela viu a tristeza, a tristeza de toda a humanidade. E é quando  está em Kulumani, que Arcanjo Baleiro descobre como a mãe  morreu e que a morte do pai não foi acidental.
   Não se trata apenas de sofrimento físico das mulheres, mas também das interdições a que estão sujeitas -  não podem entrar na shitalae e muito menos emitir opinião sobre assuntos de gravidade. Uma personagem feminina destaca-se pela ousadia, a primeira-dama, D. Naftalinda, mulher do administrador - que tinha um traseiro que obscurecia o dia, como um súbito eclipse de sol -. Por causa dela, ele que gostava de política, decide voltar a ser professor.
    Confesso que a leitura do livro me abalou. Não sabia que era esta a temática abordada e não estava preparada para a violência relatada, mas é, até por isso, inquestionavelmente, um livro a não perder.

    Acabo com mais uma frase roubada, a propósito da morte do avô de Mariamar:
   Não quiseram que eu estivesse presente. Não para me poupar da despedida. Mas para que essa despedida demorasse a vida inteira.
   

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Os deuses da culpa, Michael Connelly (Porto Editora)


    Passaram-me o livro para as mãos, dizendo apenas: Vais gostar de o ler.  E gostei.
    É o primeiro livro deste autor que leio. Tem uma abordagem distinta dos livros policiais mais comuns. Estamos a léguas dos policiais tradicionais em que tudo se desenvolve à volta de um cadáver e de um conjunto de suspeitos.
   No caso de Os deuses da culpa, a maior parte do livro decorre à volta do julgamento e durante a sua preparação e o que aparenta ser o homicídio de uma "acompanhante" pelo seu proxeneta, transforma-se num enredo bastante mais complicado envolvendo casos anteriores e policias corruptos. Nesse aspeto o livro está excelentemente construído, revelando-se verdadeira uma hipótese que foi avançada inicialmente apenas para suscitar a dúvida nos jurados.
   Mais frágil ou pelo menos mais lugar comum são as personagens que o povoam, a começar pelo protagonista principal, Dr. Michael Haller ou Mickey, divorciado, com problemas de relacionamento com a filha adolescente, sem escritório, que visita regularmente um amigo já de certa idade, Legal, com quem se aconselha sobre os casos que tem entre mãos. Um pouco o anti-herói, generoso, eternamente falido e incompreendido.
    Neste tipo de livros, o que interessa é sobretudo a construção do enredo, a investigação que vamos acompanhando até à descoberta do motivo do crime e do criminosos e neste aspeto o livro está muito bem estruturado, quase como um guião cinematográfico.
 
    Os deuses da culpa são os jurados porque são eles que decidem se o arguido é culpado ou inocente, mas depois há os outros deuses da culpa, não jurados, que nos julgam pelos atos e omissões da nossa vida, espécie de grilos falantes que nos acompanham ao longo da vida, julgando-nos permanentemente.
    

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Deixa o grande mundo girar, Colum McCann (Civilização Editora)

  
    Mais um livro fantástico. Quando acabo um livro cuja leitura me prendeu, receio sempre começar o próximo. Acho que será difícil que me prenda da mesma maneira. Mas ultimamente tenho tido a sorte de ler vários livros de seguida muito bons. De que gostei. Este foi mais um. Difícil foi interromper a leitura e, sobretudo, virar a última página.  O pretexto do livro é um acontecimento real:
    Numa madrugada do final do Verão,os habitantes de Manhattan observam incrédulos e em silêncio as Torres Gémeas. Estamos em Agosto de1974 e um misterioso funâmbulo corre, dança e salta entre as torres, suspenso a quatrocentos metros do chão. 
     As personagens do livro são as pessoas que passam na rua e olham surpreendidos para aquele homem que parece andar no ar, que se atrasam para o verem,  que à distância falam pelo telefone com alguém que está parado na rua a espreitá-lo, que se cruzam com ele mais tarde, no tribunal. E esses encontros fortuitos alteram os rumos das suas vidas. É quase como se o livro fosse uma soma de partes diferentes, em que as personagens se cruzam, se ligam, se desencontram, desaparecem ou voltam a aparecer.
    O livro está dividido em quatro partes e apenas a última ostenta a data: outubro de 2006, 32 anos depois daquela madrugada de agosto de 1974.  E se as personagens vão entrando e saindo, há algumas que nos vão acompanhando mais persistentemente: Corrigan e o irmão, Jazzlyn e a mãe, Tillie, ambas prostitutas, Gloria e Claire, mulheres em tudo distintas mas ligadas pelas perdas dos respetivos filhos na guerra  e Lara. Os laços aparentemente frágeis que os ligam, vão-lhes permitir sobreviver e irão  perdurar para além deles próprios, estendendo-se às filhas de Jazzlyn. 
    E há em todas estas personagens, nas suas vidas, uma tristeza, uma melancolia imensa. Uma enorme falta de esperança. Uma tristeza que é quase palpável e de que apenas as prostitutas, mãe e filha, parecem escapar, até que também a tragédia se abate sobre elas.

    A meio do livro desisti de continuar a roubar frases, porque senti-me tentada a roubar quase metade do livro. Houve duas frases a que não resisti, mais do que pela estética, pela identificação que senti (a primeira, a propósito do amor que unia os pais de Gloria):
     Era o tipo de amor quotidiano com que eu tive de aprendera confrontar-me: se crescermos com ele, é difícil pensar que alguma vez o vamos igualar. Eu achava que era difícil para filhos de pais que realmente se amavam, que era complicado sair de baixo dessa pele porque, por vezes, ela é tão confortável que não sentimos vontade de nos desenvolvermos por nós próprios.
  
     Mais tarde, Gloria disse-lhe que era necessário amar o silêncio, mas antes de se poder amar o silêncio tinha de se ter ruído.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

O segredo deJoe Gould, Joseph Mitchell (D. Quixote)

    A primeira referência que vi a este livro, O segredo de Joe Gould, foi ao prefácio de António Lobo Antunes. Foi por aí que comecei a lê-lo. É um prefácio entusiástico que começa da seguinte forma:    Este é, sem dúvida, um dos melhores livros que li nos últimos anos....Depois de o ler compreendi o entusiasmo, que me parece resultar mais da personagem tratada que do autor.
    Por partes: este livro é, como explica o autor, constituído por dois retratos da mesma pessoa, Joe Gould, escritos para um rubrica de perfis do The New Yorker, o primeiro em 1942 e o segundo, 22 anos depois, em 1964, já depois da morte dele.
    Joe Gould nasceu numa família abastada de Massachusetts e estudou em Harvard onde se licenciou em 1916.  Alguns anos mais tarde, foi viver para Nova Iorque onde termina por deixar o trabalho que tinha para se dedicar a escrever a História Oral do Nosso Tempo. Apresenta e fala do seu projeto a várias pessoas que chegam a entusiasmar-se com o mesmo, tendo alguns artigos, apresentados como excerto daquela obra monumental, sido publicados e com alguma repercussão. Obra que a dada altura, ele descreve como tendo onze vezes o tamanho da Bíblia. O título resultava do facto de, pelo menos, metade da obra ser constituída por conversas reproduzidas literalmente ou resumidas.
   Gould vivia na rua ou em asilos. Apenas temporariamente e por conta de uma mulher que quis ficar anónima, dormia num hotel. Passava fome e estava com frequência bêbedo ou de ressaca. 
    Não há da parte do autor qualquer tentativa de branquear a imagem de Joe Gould, nem sequer de o justificar ou compreender. Limita-se a apresentá-lo, sujo, a cheirar mal, com uma eterna conjuntivite, piolhos, mas por outro lado de uma clarividência desconcertante. Por vezes arrogante, outras submisso ou aldrabão. Ao mesmo tempo, cínico e ingénuo. Tem em fraca conta a maior parte dos escritores, poetas, pintores e escultores com que se cruzava e não se inibia de o dizer.
    Mais que uma pintura ou uma fotografia que nos é apresentada, é a personagem em todas as suas dimensões. Num momento seduz, no momento seguinte deita tudo abaixo. No meio faz a dança dos índios ou imita as gaivotas.
    Se a personagem justifica por si só a publicação de dois artigos no The New Yorker, o interesse nos mesmos, que justificam a edição em livro e até a a adaptação ao cinema, devem-se ao autor.  À escrita concisa, direta, desprovida de paixão mas completa de Joseph Mitchell, à forma como nos descreve o personagem e depois nos desvenda o seu segredo.
    Não resisto a transcrever uma reflexão que a dada altura faz quando desiste de escrever um livro que há muito tempo tinha na cabeça:
    Seja como for, decidi, se há coisas que a humanidade tem que chegue, que chegue e que sobre, são livros. Ao pensar nas cataratas de livros, nos niágaras de livros, nos caudalosos rios de livros, nos oceanos de livros, nas toneladas e camiões e comboios de livros que naquele momento brotavam das tipografias de todo o mundo, sendo que só pouquíssimos deles mereceriam a pena que lhes pegássemos, que os apreciássemos, já nem falo em os lermos (...)Um livro a menos a atravanca o mundo, um livro a menos a ocupar espaço, a apanhar pó e a passar, sem ser lido, das livrarias para os lares e daí para os alfarrabistas (...)

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Canção doce, Leila Slimani (Alfaguara)

   
    Canção doce é um livro muito perturbador e de uma enorme violência. Logo na contracapa lemos o resumo e ficamos a saber a história. Myriam, mãe de duas crianças pequenas chega a casa mais cedo para surpreender os filhos que estão com uma ama. E o livro começa assim:
    O bebé morreu. Bastaram alguns segundos. O médico garantiu que ele não sofreu. Deitaram-no dentro de um saco cinzento e fizeram deslizar o fecho de correr sobre o corpo desarticulado que boiava no meio dos brinquedos. Quanto à menina, ainda estava viva quando chegaram os serviços de emergência.
   Não é um livro de suspense no sentido clássico, pois sabemos logo no início o drama que se vai abater sobre aquela família e de quem é a responsabilidade. E se o livro começa justamente pelo fim, percebemos que o importante é  o caminho que é feito até àquele momento. Os passos dados, os sinais ignorados que conduziram àquele desfecho. Mas o trágico é sentir que podia acontecer connosco. É sentirmos que somos a Myriam no momento que entra em casa, desejosa de surpreender os filhos. 
    Para o leitor é fácil ir descobrindo os sinais que Louise, a ama, vai revelando ao longo do tempo que trabalha com as crianças e que evidenciam uma ligação doentia, uma dependência patológica daquela família, que tinha a perceção justamente oposta, isto é, que eles é que dependiam dela. Mas percebemos também que fora do livro, na vida real, poderíamos ter ignorado todos estes sinais, como eles fizeram, porque só fazem sentido quando o drama acontece.
    A identificação com Myriam não acontece apenas no momento inicial - ou final - quando entra em casa naquele dia fatal, mas ao longo do livro, no desejo da maternidade, no cansaço, na ambiguidade entre o trabalho e a família, no sentimento de culpa. No medo (desde que eles nasceram, Myriam tem medo de tudo. Sobretudo de que morram.)
    Não deixa de ser curioso, o facto de Myriam recusar contratar uma árabe, embora ela seja descrita como o sendo, porque desconfia daquilo a que chama "solidariedade entre imigrantes" e por isso escolhe Louise, uma francesa. Talvez o ponto fraco deste livro seja justamente Louise, quando admite que não sabe amar e diz para ela própria Alguém tem de morrer. Alguém tem de morrer para que sejamos felizes. Não se percebe bem o que despoleta esta atitude, esta mudança nela até aí sempre tão dedicada às crianças (Adora, no entanto, aquelas duas crianças, que passa horas a observar.)
    Um livro a não perder, que mexe connosco, nos emociona, nos revolta, nos magoa. Um murro no estômago.
   

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Mulheres fora da lei, Anabela Natário (Desassossego)



   
   Depois de ler Crime e Castigo, quase a propósito, saboreei a leitura deste livro «Mulheres fora de lei». Apesar do subtítulo algo dramático – venha conhecer as maiores criminosas dos últimos três séculos em Portugal – o livro inicia-se com uma pequena nota da autora que lembra que o crime não é um exclusivo do homem, as mulheres, embora em menor número, também o praticam.
    Cada capítulo é precedido de uma ficha de identificação com o nome da mulher, idade, local de nascimento, morada do crime, tipo de crime, vítima e data. Das 23 histórias contadas, 3 passaram-se no século XVIII, 12 no século XIX e as restantes no século XX. O crime maioritário é o de furto, seguido pelo do homicídio, em regra, do marido. 
    Na minha leitura, duas histórias se destacaram, uma de uma verdadeira serial killer que ia buscar crianças expostas e as matava com requintes de malvadez – e matou 34 crianças, em 1772 – e  a segunda, já no século XX, que, vestida de homem, tentou matar o seu chefe para vingar o irmão. Outro caso interessantíssimo é o da pintora  Maria Josefa Garcia Seoane Greno que também assassinou o marido e que foi considerada penalmente irresponsável por Miguel Bombarda.
    Para além da natural curiosidade do tema, e da respetiva apresentação, merece destaque a forma como cada história é contada. Como refere a autora, são histórias verdadeiras, sem sombra de ficção, porque assim se pretendeu. Nada de imaginação (embora possa parecer). Nem precisa, porque muitas destas histórias em nada devem à imaginação de um qualquer novelista e foram até fonte de inspiração para escritores, poetas e mesmo realizadores de cinema. A começar por Isabel Xavier Clesse que tentou envenenar o marido tendo a sua história sido contada por Camilo Castelo Branco, um século depois, e, anteriormente, por muitos outros escritores e poetas, íncluindo a Marquesa de Alorna. Como refere Anabela Natário trata-se de um caso insólito, não tanto pelo tema do adultério feminino, mas sobretudo pela decisão da ré de assassinar o marido, recorrendo a um tão ardiloso expediente. A severidade da sentença e o carácter espectacular  de que se revestia na época o exercício da justiça ajudarão também a compreender a passagem do caso a tema poético. 
    Muita coisa mudou desde a época em que estes crimes foram praticados, contudo, provavelmente a maior alteração é ao nível da justiça, começando pela abolição da pena de morte a que algumas destas primeiras criminosas são condenadas.
    Para além do voyeurismo que estes casos suscitam, mesmo decorridos tantos anos, a forma como os crimes são narrados e a apresentação da obra tornam a leitura deste livro um prazer.