domingo, 23 de abril de 2017

Leituras com borboleta

     O que pode acontecer quando vamos ler para um jardim? Uma deslumbrante borboleta pousa na capa. Aguardamos que parta para abrir o livro, o que leva algum tempo. Passeia-se entre as letras e as imagens e só depois levanta voo, para regressar quando abrimos o livro e pousar de novo numa das páginas. Passa de uma página para a outra, levantando voo mas regressando sempre, até que se fez tarde e começou a estar frio e lentamente, para não a assustar, fechei o livro depois de ela levantar voo, guardei-o no saco e vim-me embora.

domingo, 16 de abril de 2017

Toda a luz que não podemos ver, Anthony Doerr (Editorial Presença)

 
  Vi este livro nas mãos de uma colega e fiquei com muita vontade de o ler. O livro está estruturado em 13 capítulos, começando no zero - 7 de agosto - e acabando no treze - 2014 - embora não esteja cronologicamente estruturado. Começamos por acompanhar Marie Laure, uma menina francesa, cega, que vive com o pai, serralheiro, encarregado das chaves do Museu Nacional de História Natural em Paris.
    O pai faz maquetes da zona onde habitam em Paris (e mais tarde de Saint Malo) para que a filha aprenda a deslocar-se autonomamente no exterior. Todos os aniversários Marie Laure recebe do pai uma caixa ou outro objecto cuja abertura ela tem de descobrir com uma prenda no interior e, quando pode, livros de Jules Verne, em braille. Quando Paris é ocupada partem ambos para Saint Malo, onde reside um tio-avô do pai que sofre de agorafobia. O pai leva consigo uma pedra raríssima e preciosa, que se crê proteger quem a possui e amaldiçoar todos os que o rodeiam. Foram feitas mais três réplicas que partirão com outros tantos funcionários, sendo que nenhum sabe se a pedra que transporta é a verdadeira. 
    O tio avô vive com uma empregada, Madame Manec, e o trauma de que sofre foi fruto da morte do irmão com quem  fazia programas de rádio para crianças. Na Alemanha, este programa era ouvido por Werner e Jutta, dois irmãos que viviam num orfanato. Werner revela-se um jovem com capacidades excepcionais pelo que, em vez do destino habitual dos jovens do orfanato, trabalhar nas minas, vai para uma escola e depois é mobilizado para localizar emissões de rádio nas zonas ocupadas.
    O pai de Marie Laure tenta regressar a Paris, deixando a filha com o tio avô e com Madame  Manec, mas é preso e depois de algumas cartas que a filha recebe, nunca mais sabem nada dele. Madame Manec entretanto envolve-se em actividades de resistência, trazendo coordenadas - dentro de pão - e outras notícias para serem transmitidas pelo rádio que o tio avô mantém no sótão. Percebemos nessa altura que Werner e Maria Laure irão encontrar-se e de facto Werner localiza o rádio mas não o denuncia e quando entra em casa de Marie Laure termina por matar um sargento alemão, doente com leucemia, que procurava desesperadamente a pedra por crer na lenda que assegurava que quem a possuísse não morreria.
    Em vários momentos do livro receei que a história se transformasse num lugar comum, permitindo que Werner e Marie Laure sobrevivessem ambos à guerra e vivessem felizes para sempre. Mas Werner é preso e morre depois de ter tirado Marie Laure de casa, explicando-lhe para onde se deveria dirigir, dado que os aliados já se encontravam a bombardear Saint Malo. É Jutta, a irmã,  quem anos mais tarde recebe a mochila de Werner e procura Marie Laure. 
    Mas dizer isto, é dizer muito pouco do que cabe neste livro. Se calhar a história principal é menos importante do que todas as outras que se sucedem e que têm como cenário principal a II Guerra Mundial e a devastação que a todos os níveis causou. 
    E é um privilégio ler um livro que associa uma escrita magnífica a uma história fantástica. Não é por acaso que ganhou o Prémio Pulitzer 2015 e foi finalista do National Book Award.
    Roubei umas frases mesmo da última página do livro:
   E será assim tão difícil acreditar que as almas também podem percorrer tais caminhos? (...) Que tripulações de almas poderão voar em diferentes sentidos, desvanecidas mas audíveis desde que se lhes preste a devida atenção? Sobrevoam as chaminés, transitam nos passeios, infiltram-se nos casacos e nas camisas e nos esternos e nos pulmões e emergem do lado oposto, o ar uma biblioteca e o registo de cada vida vivida, todas as frases ditas, todas as palavras transmitidas reverberando em cada movimento contínuo.
   A cada momento, pensa ela, alguém para quem a guerra era uma memória cai fora do mundo.   

sexta-feira, 31 de março de 2017

O vendedor de passados, José Eduardo Agualusa (Edições D. Quixote)

    É tão bom apaixonarmo-nos por um livro. A este livro cheguei através do filme. Vi primeiro a adaptação ao cinema de Lula Buarque de Hollanda e fiquei fascinada pela história. No final verifiquei que se tratava de uma adaptação de um romance, com o mesmo nome, de José Eduardo Agualusa. Não me recordo detalhadamente do filme, que já vi há algum tempo, mas embora a ação decorresse no Brasil e não em Angola  e os passados e personagens fossem distintos, a história é similar: o passado comprado (criado) transforma a pessoa e torna-se mais real que o passado vivido. Em ambos,  o vendedor de passados é surpreendido pela transformação que se gera no seu cliente,  que incarna a personagem que resultou daquele passado e vai reforçando e consolidando desta forma a sua história. 
    O que é afinal um vendedor de passados?
    (...) vende-lhes um  passado novo em folha. Traça-lhes a árvore genealógica. Dá-lhes as fotografias dos avôs e bisavôs, cavalheiros de fina estampa, senhoras do tempo antigo.
    Mas criar um passado não nos liberta do que vivemos, de quem somos e do que fomos. E é nesse encontro entre passados inventados e verdadeiros que o livro  ganha uma dimensão e consistência superior ao filme. Neste último, a questão central resultava da absorção do passado comprado como se de facto tivesse sido vivido. No livro, apesar do passado comprado, o passado real persiste e persegue as pessoas.
    E ao lado desta história, a osga que vive no teto da casa de Félix Ventura, vai testemunhando e relatando as visitas e a crescente paixão que aquele vai vivendo por Ângela Lúcia, e os sonhos que vai tendo. E acompanhamos a criação do passado do Ministro. E suspeitamos, como Félix e Ângela, que o Presidente foi substituído por um sócia. E interrogamo-nos sobre as ameias do Castelo de S. Jorge....
    Apesar da escrita simples e leve do livro há muitas histórias nele, verdadeiras e inventadas.
    Acabo com uma frase que a mãe da osga, na sua vida anterior, lhe dizia:
 
    Quando algo nos parece muito belo pensamos que só pode ser um sonho e então beliscamo-nos para termos a certeza de que não estamos a sonhar - se doer é porque não estamos a sonhar. A realidade fere, mesmo quando, por instantes, nos parece um sonho. Nos livros está tudo o que existe, muitas vezes em cores mais autêntica, e sem a dor verídica de tudo o que realmente existe. Entre a vida e os livros, meu filho, escolhe os livros.

quinta-feira, 30 de março de 2017

The White Princess, Philippa Gregory (Simon&Schuster)

    Este livro foi uma tremenda deceção. Decidi lê-lo em inglês, no seu original, para conhecer um pouco melhor a escrita da autora, já que só podia ter uma fraca ideia pelas traduções dos outros livros dela que já li (ver aqui). Confirmei que não é uma escritora exímia, nem sequer particularmente boa. Ainda assim, mau grado meu, sou uma apaixonada por romances históricos e pela História da Inglaterra em particular. Desde que comecei a ler esta série e visitei a Torre de Londres, ainda fiquei mais curiosa. Quando terminei "A Filha do Conspirador" e, na nota da autora, li que o livro seguinte focaria as teorias em volta dos príncipes desaparecidos, soube que teria de ler esse (este!) romance também. Mas o livro é muito fraco; não queria largá-lo porque queria saber como iria terminar, mas confesso que custou.
     Desta vez seguimos o casamento de Elizabeth de York com Henry Tudor, o primeiro Tudor. Elizabeth é a filha do Rei Edward IV e de Elizabeth Woodville ("A Rainha Branca") e, supõe-se, amante do tio, o Rei Richard III. É também irmã dos príncipes desaparecidos. Richard é derrotado na batalha de Bosworth por Henry Tudor, filho de Margaret Beaufort ("A Rainha Vermelha") e Edmund Tudor, ambos da linhagem Lencastre. Henry e Elizabeth estavam comprometidos desde novos, mas Henry viveu em exílio até invadir a Inglaterra para reclamar o seu direito ao trono, que acabou por conseguir com a morte de Richard.
    Todo o seu reinado é, no entanto, ameaçado por revoltas e conspirações e pretensos príncipes reaparecidos clamando o seu direito ao trono. Uma vez que o paradeiro dos príncipes se mantinha desconhecido, não se sabia se estariam vivos ou mortos, o que abria as portas a vários impostores fazendo-se passar por um ou outro.
    Como sempre, com Philippa Gregory, seguimos a vida de uma mulher - Elizabeth de York - durante o seu casamento forçado com o homem responsável pela morte do suposto amante, seguindo as suas dúvidas constantes quanto ao envolvimento da família, particularmente da mãe e da tia, em conspirações para destronarem o marido, e a sua luta interior ente assegurar o trono para o filho Artur ou reconhecer um dos rapazes que diz ser o seu irmão Richard.
    No entanto, a sensação que passa é a de que a autora conseguiu descobrir muito pouco sobre ela e o que se passou na altura porque, como foi muito bem comentado numa crítica que li no Goodreads, a frase mais frequentemente usada pela protagonista é I don't know! (Eu não sei!)...

    Mother, think of me for a moment! What should I do if my brother is alive and he comes at the head of an army, to fight my husband for the throne? The throne that should go to my son? What should I do? When my brother comes to my door with his sword in his hand? Am I Tudor or York?

     (Mãe, pensa em mim por um momento! O que é que eu faço se o meu irmão estiver vivo e vier à cabeça de um exército para disputar o trono com o meu marido? O trono que deveria vir a ser do meu filho? O que é que eu faço? Quando o meu irmão aparecer à minha porta de espada na mão? Eu sou uma Tudor ou uma Iorque?)

sexta-feira, 24 de março de 2017

O Livreiro de Paris, Nina George (Editorial Presença)

    Já tinha lido algumas críticas positivas a este livro pelo que comecei logo a lê-lo após o ter recebido. O meu irmão conhece bem os meus gostos e costuma acertar nas escolhas que faz. Uma farmácia literária? Receitar livros  para curar males é uma ideia fantástica, mas que falha na concretização.
    Jean Perdu é o proprietário da Farmácia Literária que se encontra instalada num barco atracado no rio Sena, em Paris. Perdeu a mulher que amava há muitos anos e nunca mais voltou a amar. A leitura de uma carta, recebida também há anos, e que não lera então, altera a história que ele tinha vivido e leva-o a soltar as amarras do barco e a partir.
    Parte acompanhado de um jovem escritor que perdeu a inspiração e percebemos logo que a viagem será redentora para os dois e como irá  acabar.
    Se lemos muitos livros não pela história ou para descobrir o seu fim, mas pelo prazer da leitura, também neste caso não acontece. A leitura deste livro poderia, no entanto, ter a vantagem dos livros prescritos - que a autora no final elenca - mas os que conheço, no geral não se adaptam à descrição, nem à prescrição.
    O único autor português que aparece é Saramago, O Ensaio sobre a Cegueira. Depois de uma cliente referir que o tinha lido em jovem e que tinha ficado completamente desorientada, Perdu responde-lhe:
    Esse livro não é para quem está a começar a vida, mas sim para quem se encontra a meio da travessia. Para os que se perguntam que raio é que fizeram com a primeira metade. Para quem deixa de olhar para as pontas dos pés que tão denodadamente se foram colocando um à frente do outro, sem realmente ver para onde é que seguia de uma maneira tão disciplinada e inteligente. Cegos, apesar de conseguirem ver. Só os incapazes de ver a vida é que necessitam da fábula de Saramago.
    Talvez esta seja a melhor parte do livro.

terça-feira, 14 de março de 2017

Levantado do chão, José Saramago (editorial Caminho)


  Tenho para ler, pousados no baú do meu quarto, vários livros recentemente editados. As livrarias, as revistas, os jornais destacam sempre os livros acabados de publicar. Mesmo os prémios destinam-se a livros publicados no ano, deixando de fora todos os livros já com alguma pátina. Com exceção dos livros e autores premiados  ou que integram os programas escolares, os outros dificilmente conseguirão sobreviver alguns anos, escondidos pelos mais recentes nos escaparates das livrarias. Por isso faço um esforço para ir lendo, de quando em vez, ou mesmo relendo livros com alguma idade.
    Levantado do chão, já teve muitas edições posteriores, mas esta que li, embora seja a 2ª edição, é de 1980, ano em que foi publicado. Já o tinha lido provavelmente na altura da edição, mas gostei muito de relê-lo. É um livro extraordinário que narra a vida difícil dos assalariados no Alentejo. A fome, a miséria, o desemprego, mas também a paixão, o amor e a solidariedade passam pelas páginas do livro, onde aparecem coisas tão surpreendentes como os olhos azuis que de geração em geração vão surgindo na família dos Boa Morte (Assim, durante quatro séculos estes olhos azuis vindos da Germânia apareceram e desapareceram, tal como os cometas que se perdem no caminho e regressam  quando com eles já se não conta, ou simplesmente porque ninguém cuidou de registar as passagens e descobrir sua regularidade. pg 24)
    Começamos por acompanhar Domingos Mau-Tempo, sapateiro, bêbedo e sua mulher, Sara da Conceição, de terra em terra, ainda antes da instauração da república. Sara termina por abandonar o marido e refugiar-se em casa do pai com os filhos. Com a morte do pai, João Mau-Tempo é o homem da casa, o mais velho. Começa a trabalhar ainda criança e virá a casar com Faustina. São sempre vidas de miséria, à mercê dos patrões e capatazes dos latifúndios, a trabalhar, quando havia trabalho, do nascer ao pôr do sol. A luta pelo direito ao trabalho e pelas oito horas é inevitável mas levará João Mau Tempo à prisão, primeiro em Torres Novas, depois em Aljube e Caxias, onde é barbaramente torturado pela PIDE. João Mau-Tempo morrerá alguns anos depois e por pouco não assistirá à revolução e ao primeiro 1º de maio.
    É um livro extraordinário, onde formigas testemunham a tortura a que são sujeitos os presos e  anjos acompanham a vida no latifúndio:
    Nos altos céus, os anjos estão debruçados dos parapeitos das janelas ou daquela varanda corrida, com balaústres de prata, que dá uma volta inteira mesmo por cima do horizonte, em dias claros vê-se bem, e apontam, e chamam-se uns aos outros, estouvaditos, está-lhes na idade, e um deles, mais graduado, vai a correr chamar dois ou três santos antigamente ligados a coisas de agricultura e pecuária para que venham ver o que vai pelo latifúndio, um desassossego, magotes de gente escura pelas estradas, onde as há, ou pelos quase invisíveis carris do mato, a atalhar caminho, ou em linha, pela estrema das searas, como um carreiro de formigas pretas. (pg. 145).

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Cartas de Amor de Grandes Homens, Ursula Doyle (Bertrand Editora)

     Tenho de confessar que este livro foi uma deceção. Mas o defeito foi meu: ao ler “Cartas de Amor de Grandes Homens”, assumi que estava a ler “Grandes Cartas de Amor de Grandes Homens”. A maioria das cartas não eram sequer, em meu entender, cartas de amor propriamente ditas – muitas delas eram só mesmo cartas entre apaixonados, e não particularmente boas, em meu entender.
    A breve introdução dos vários autores também é muito fraca, dando poucas informações sobe o autor e a ou as contempladas (ou contemplados, em alguns casos) com as cartas – sim, porque, por vezes, o amor era tanto que as cartas que são transcritas foram cartas enviadas para mais do que uma pessoa.
   Uma boa surpresa foi a quantidade de cartas de autores portugueses, quando as cartas foram reunidas por Ursula Doyle, inglesa.
    Ainda assim, e porque o geral foi uma desilusão, gostei muito das cartas de Diderot, de Schiller, de Pessoa, de António Nobre, de Almeida Garrett, de Shumann. Transcrevo, em seguida, algumas das passagens destas cartas:

    Adieu, meu queridíssimo amor. A minha afeição por ti é ardente e sincera. Amar-te-ia ainda mais do que amo se soubesse como.
    - Diderot, para Sophie Volland

    Quem me dera ser uma ave: arrancaria uma pena às minhas asas e, voando ao céu, embebê-la-ia na tinta da aurora, naquela tinta vermelha com que os anjos escrevem cartinhas de namoro às estrelas.
Quem me dera escrever-te com uma pena assim e com uma tinta igual: - eu seria, pela primeira vez, anjo, e tu serias o que há muito és: - estrela!
    - António Nobre, para Cândida Ramos

    Juro que já não tenho mérito em te ser fiel, em te protestar e guardar esta lealdade exclusiva que hei-de consagrar até o último instante da minha vida: não tenho mérito algum nisso. Depois de ti, toda a mulher é impossível para mim, que antes de ti não conheci nenhuma que me pudesse fixar.

- Almeida Garrett, para Rosa Montufar Infante