Prémio Nobel da Literatura 2017

Prémio Nobel da Literatura 2017

Kazuo Ishiguro

autor, entre outros, de Os despojos do dia e Nunca me deixes


quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Deixa o grande mundo girar, Colum McCann (Civilização Editora)

  
    Mais um livro fantástico. Quando acabo um livro cuja leitura me prendeu, receio sempre começar o próximo. Acho que será difícil que me prenda da mesma maneira. Mas ultimamente tenho tido a sorte de ler vários livros de seguida muito bons. De que gostei. Este foi mais um. Difícil foi interromper a leitura e, sobretudo, virar a última página.  O pretexto do livro é um acontecimento real:
    Numa madrugada do final do Verão,os habitantes de Manhattan observam incrédulos e em silêncio as Torres Gémeas. Estamos em Agosto de1974 e um misterioso funâmbulo corre, dança e salta entre as torres, suspenso a quatrocentos metros do chão. 
     As personagens do livro são as pessoas que passam na rua e olham surpreendidos para aquele homem que parece andar no ar, que se atrasam para o verem,  que à distância falam pelo telefone com alguém que está parado na rua a espreitá-lo, que se cruzam com ele mais tarde, no tribunal. E esses encontros fortuitos alteram os rumos das suas vidas. É quase como se o livro fosse uma soma de partes diferentes, em que as personagens se cruzam, se ligam, se desencontram, desaparecem ou voltam a aparecer.
    O livro está dividido em quatro partes e apenas a última ostenta a data: outubro de 2006, 32 anos depois daquela madrugada de agosto de 1974.  E se as personagens vão entrando e saindo, há algumas que nos vão acompanhando mais persistentemente: Corrigan e o irmão, Jazzlyn e a mãe, Tillie, ambas prostitutas, Gloria e Claire, mulheres em tudo distintas mas ligadas pelas perdas dos respetivos filhos na guerra  e Lara. Os laços aparentemente frágeis que os ligam, vão-lhes permitir sobreviver e irão  perdurar para além deles próprios, estendendo-se às filhas de Jazzlyn. 
    E há em todas estas personagens, nas suas vidas, uma tristeza, uma melancolia imensa. Uma enorme falta de esperança. Uma tristeza que é quase palpável e de que apenas as prostitutas, mãe e filha, parecem escapar, até que também a tragédia se abate sobre elas.

    A meio do livro desisti de continuar a roubar frases, porque senti-me tentada a roubar quase metade do livro. Houve duas frases a que não resisti, mais do que pela estética, pela identificação que senti (a primeira, a propósito do amor que unia os pais de Gloria):
     Era o tipo de amor quotidiano com que eu tive de aprendera confrontar-me: se crescermos com ele, é difícil pensar que alguma vez o vamos igualar. Eu achava que era difícil para filhos de pais que realmente se amavam, que era complicado sair de baixo dessa pele porque, por vezes, ela é tão confortável que não sentimos vontade de nos desenvolvermos por nós próprios.
  
     Mais tarde, Gloria disse-lhe que era necessário amar o silêncio, mas antes de se poder amar o silêncio tinha de se ter ruído.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

O segredo deJoe Gould, Joseph Mitchell (D. Quixote)

    A primeira referência que vi a este livro, O segredo de Joe Gould, foi ao prefácio de António Lobo Antunes. Foi por aí que comecei a lê-lo. É um prefácio entusiástico que começa da seguinte forma:    Este é, sem dúvida, um dos melhores livros que li nos últimos anos....Depois de o ler compreendi o entusiasmo, que me parece resultar mais da personagem tratada que do autor.
    Por partes: este livro é, como explica o autor, constituído por dois retratos da mesma pessoa, Joe Gould, escritos para um rubrica de perfis do The New Yorker, o primeiro em 1942 e o segundo, 22 anos depois, em 1964, já depois da morte dele.
    Joe Gould nasceu numa família abastada de Massachusetts e estudou em Harvard onde se licenciou em 1916.  Alguns anos mais tarde, foi viver para Nova Iorque onde termina por deixar o trabalho que tinha para se dedicar a escrever a História Oral do Nosso Tempo. Apresenta e fala do seu projeto a várias pessoas que chegam a entusiasmar-se com o mesmo, tendo alguns artigos, apresentados como excerto daquela obra monumental, sido publicados e com alguma repercussão. Obra que a dada altura, ele descreve como tendo onze vezes o tamanho da Bíblia. O título resultava do facto de, pelo menos, metade da obra ser constituída por conversas reproduzidas literalmente ou resumidas.
   Gould vivia na rua ou em asilos. Apenas temporariamente e por conta de uma mulher que quis ficar anónima, dormia num hotel. Passava fome e estava com frequência bêbedo ou de ressaca. 
    Não há da parte do autor qualquer tentativa de branquear a imagem de Joe Gould, nem sequer de o justificar ou compreender. Limita-se a apresentá-lo, sujo, a cheirar mal, com uma eterna conjuntivite, piolhos, mas por outro lado de uma clarividência desconcertante. Por vezes arrogante, outras submisso ou aldrabão. Ao mesmo tempo, cínico e ingénuo. Tem em fraca conta a maior parte dos escritores, poetas, pintores e escultores com que se cruzava e não se inibia de o dizer.
    Mais que uma pintura ou uma fotografia que nos é apresentada, é a personagem em todas as suas dimensões. Num momento seduz, no momento seguinte deita tudo abaixo. No meio faz a dança dos índios ou imita as gaivotas.
    Se a personagem justifica por si só a publicação de dois artigos no The New Yorker, o interesse nos mesmos, que justificam a edição em livro e até a a adaptação ao cinema, devem-se ao autor.  À escrita concisa, direta, desprovida de paixão mas completa de Joseph Mitchell, à forma como nos descreve o personagem e depois nos desvenda o seu segredo.
    Não resisto a transcrever uma reflexão que a dada altura faz quando desiste de escrever um livro que há muito tempo tinha na cabeça:
    Seja como for, decidi, se há coisas que a humanidade tem que chegue, que chegue e que sobre, são livros. Ao pensar nas cataratas de livros, nos niágaras de livros, nos caudalosos rios de livros, nos oceanos de livros, nas toneladas e camiões e comboios de livros que naquele momento brotavam das tipografias de todo o mundo, sendo que só pouquíssimos deles mereceriam a pena que lhes pegássemos, que os apreciássemos, já nem falo em os lermos (...)Um livro a menos a atravanca o mundo, um livro a menos a ocupar espaço, a apanhar pó e a passar, sem ser lido, das livrarias para os lares e daí para os alfarrabistas (...)

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Canção doce, Leila Slimani (Alfaguara)

   
    Canção doce é um livro muito perturbador e de uma enorme violência. Logo na contracapa lemos o resumo e ficamos a saber a história. Myriam, mãe de duas crianças pequenas chega a casa mais cedo para surpreender os filhos que estão com uma ama. E o livro começa assim:
    O bebé morreu. Bastaram alguns segundos. O médico garantiu que ele não sofreu. Deitaram-no dentro de um saco cinzento e fizeram deslizar o fecho de correr sobre o corpo desarticulado que boiava no meio dos brinquedos. Quanto à menina, ainda estava viva quando chegaram os serviços de emergência.
   Não é um livro de suspense no sentido clássico, pois sabemos logo no início o drama que se vai abater sobre aquela família e de quem é a responsabilidade. E se o livro começa justamente pelo fim, percebemos que o importante é  o caminho que é feito até àquele momento. Os passos dados, os sinais ignorados que conduziram àquele desfecho. Mas o trágico é sentir que podia acontecer connosco. É sentirmos que somos a Myriam no momento que entra em casa, desejosa de surpreender os filhos. 
    Para o leitor é fácil ir descobrindo os sinais que Louise, a ama, vai revelando ao longo do tempo que trabalha com as crianças e que evidenciam uma ligação doentia, uma dependência patológica daquela família, que tinha a perceção justamente oposta, isto é, que eles é que dependiam dela. Mas percebemos também que fora do livro, na vida real, poderíamos ter ignorado todos estes sinais, como eles fizeram, porque só fazem sentido quando o drama acontece.
    A identificação com Myriam não acontece apenas no momento inicial - ou final - quando entra em casa naquele dia fatal, mas ao longo do livro, no desejo da maternidade, no cansaço, na ambiguidade entre o trabalho e a família, no sentimento de culpa. No medo (desde que eles nasceram, Myriam tem medo de tudo. Sobretudo de que morram.)
    Não deixa de ser curioso, o facto de Myriam recusar contratar uma árabe, embora ela seja descrita como o sendo, porque desconfia daquilo a que chama "solidariedade entre imigrantes" e por isso escolhe Louise, uma francesa. Talvez o ponto fraco deste livro seja justamente Louise, quando admite que não sabe amar e diz para ela própria Alguém tem de morrer. Alguém tem de morrer para que sejamos felizes. Não se percebe bem o que despoleta esta atitude, esta mudança nela até aí sempre tão dedicada às crianças (Adora, no entanto, aquelas duas crianças, que passa horas a observar.)
    Um livro a não perder, que mexe connosco, nos emociona, nos revolta, nos magoa. Um murro no estômago.
   

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Mulheres fora da lei, Anabela Natário (Desassossego)



   
   Depois de ler Crime e Castigo, quase a propósito, saboreei a leitura deste livro «Mulheres fora de lei». Apesar do subtítulo algo dramático – venha conhecer as maiores criminosas dos últimos três séculos em Portugal – o livro inicia-se com uma pequena nota da autora que lembra que o crime não é um exclusivo do homem, as mulheres, embora em menor número, também o praticam.
    Cada capítulo é precedido de uma ficha de identificação com o nome da mulher, idade, local de nascimento, morada do crime, tipo de crime, vítima e data. Das 23 histórias contadas, 3 passaram-se no século XVIII, 12 no século XIX e as restantes no século XX. O crime maioritário é o de furto, seguido pelo do homicídio, em regra, do marido. 
    Na minha leitura, duas histórias se destacaram, uma de uma verdadeira serial killer que ia buscar crianças expostas e as matava com requintes de malvadez – e matou 34 crianças, em 1772 – e  a segunda, já no século XX, que, vestida de homem, tentou matar o seu chefe para vingar o irmão. Outro caso interessantíssimo é o da pintora  Maria Josefa Garcia Seoane Greno que também assassinou o marido e que foi considerada penalmente irresponsável por Miguel Bombarda.
    Para além da natural curiosidade do tema, e da respetiva apresentação, merece destaque a forma como cada história é contada. Como refere a autora, são histórias verdadeiras, sem sombra de ficção, porque assim se pretendeu. Nada de imaginação (embora possa parecer). Nem precisa, porque muitas destas histórias em nada devem à imaginação de um qualquer novelista e foram até fonte de inspiração para escritores, poetas e mesmo realizadores de cinema. A começar por Isabel Xavier Clesse que tentou envenenar o marido tendo a sua história sido contada por Camilo Castelo Branco, um século depois, e, anteriormente, por muitos outros escritores e poetas, íncluindo a Marquesa de Alorna. Como refere Anabela Natário trata-se de um caso insólito, não tanto pelo tema do adultério feminino, mas sobretudo pela decisão da ré de assassinar o marido, recorrendo a um tão ardiloso expediente. A severidade da sentença e o carácter espectacular  de que se revestia na época o exercício da justiça ajudarão também a compreender a passagem do caso a tema poético. 
    Muita coisa mudou desde a época em que estes crimes foram praticados, contudo, provavelmente a maior alteração é ao nível da justiça, começando pela abolição da pena de morte a que algumas destas primeiras criminosas são condenadas.
    Para além do voyeurismo que estes casos suscitam, mesmo decorridos tantos anos, a forma como os crimes são narrados e a apresentação da obra tornam a leitura deste livro um prazer.
    

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Rose Madder, Stephen King (New English Library)

    [em português, O Retrato de Rose Madder, publicado pela Bertrand Editora]

    Quando, no ano passado, li o livro Under the Dome, fiquei positivamente impressionada com Stephen King. Na minha procura por outros romances do mesmo autor que me despertassem o interesse sem serem demasiado assustadores (marca que é sempre associada a King), descobri este - Rose Madder. E chamou-me a atenção por se tratar da história de uma mulher vítima de violência doméstica que foge ao marido, levando consigo apenas o cartão de crédito dele. 
   Voltei a achar a escrita muito simples e acessível, o que é bom porque o li no original, portanto, em inglês.
   O livro começa com uma cena horrível, após uma sessão de pancada particularmente violenta a Rose Daniels pelo marido, Norman Daniels. Estão casados há cinco anos e passam outros nove ate que, em saber exatamente porquê, um dia Rose vê uma gota de sangue (seu) no lençol da cama e, ante a perspetiva de ter de mudar novamente os lençóis, decide, num impulso, sair de casa. A jornada não é fácil e é cheia de dúvidas e pânico - o que não seria de admirar: Norman é um detetive da polícia, que acabou de ser condecorado por desmantelar um círculo de droga há muito perseguido. Mas, mais do que isso, é um homem absolutamente perturbado e mais do que violento - é um assassino.
    Rose começa a orientar a vida graças ao apoio de uma casa-refúgio e, subitamente, tudo parece encaminhar-se: entra numa casa de penhoras para vender o anel de noivado (que descobre não valer praticamente nada) e, quando vai a sair, vê um quadro que é como se lhe falasse:

    It was the picture of the woman on the hill she was interested in, and only that. (...) It filled her eyes and her mind with the sort of clean, revelatory excitement that belongs only to the works of art that deeply move us - the song that made us cry, the story that made us see the world clearly from another's perspective, at least for awhile, the poem that made us glad to be alive, the dance that made us forget for a few minutes that someday we will not be.
    (Era no quadro da mulher na colina que ela estava interessada, e apenas esse. (...) Encheu-lhe os lhos e a mente com aquele tipo de excitação limpa e reveladora que pertence apenas às obras de arte que nos comovem profundamente - a canção que nos fez chorar, a história que nos fez ver o mundo claramente pela perspetiva de outra pessoa, pelo menos por um momento, o poema que nos deixou felizes por estarmos vivos, a dança que nos fez esquecer por alguns minutos que um dia não existiremos.) 

    Preste a ter um cantinho só para si, Rose troca o anel pelo quadro, que quer como primeira compra para a sua nova casa, nessa loja, onde conhece Bill Steiner e à saída da qual recebe uma proposta de emprego.
   Tudo se encaminha.
   Mas o quadro não é apenas um quadro. E Norman está a caminho.

   Gostei bastante do livro, com apenas dois senãos: i) foi um dos livros mais violentos que já li e (in)felizmente, as cenas estão tão bem descritas que foi horrível lê-las (e imaginá-las); ii) confesso que não estava a contar com a parte mais "fantástica" do livro, e dispensava-a, Ainda não conheço suficientemente bem o autor para saber se já deveria estar à espera dela ou não.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

O mar, John Banville (Edições Asa)

  
 
  Nas arrumações cíclicas aos livros, encontrei este, adquirido há alguns anos e não lido então. Já estava no sótão, arrumado, destino dado aos livros lidos ou que abandonei a meio. Este não se enquadra em nenhuma destas categorias e portanto foi uma feliz coincidência termo-nos encontrado. É um livro belíssimo, como um trabalho rendilhado mas cheio de sentido ( O céu estava enevoado e nem uma brisa agitava a superfície do mar, as ondas pequenas desfaziam-se languidamente na orla da água, continuamente, como uma bainha interminavelmente pespontada por uma costureira ensonada.)
    A história é aparentemente simples, Max Morden volta à pequena vila onde passou férias na infância para recuperar da morte recente da sua mulher, Anna, e instala-se na Casa dos Cedros. Era nesta casa que ficavam os Grace, uma família pela qual se sentia atraído em miúdo, em particular pela mãe e pelos filhos gémeos, Myles e Chloe. Instala-se nesta casa na tentativa de os recuperar, de encontrar qualquer resquício da presença deles.     
    O livro decorre entre o passado e o presente: a infância de Max, a separação dos pais, o casamento com Anna, a filha de ambos, Claire, e o luto e as recordações que aquela viagem evoca. À medida que o lemos, temos a impressão que pouco acontece, que é sobretudo um livro reflexivo, sobre a morte, a vida e a perda, mas, quando fechamos o livro, percebemos que aconteceram milhares de coisas. Talvez seja esta a parte mais dececionante do livro, apenas no final, quase numa vertigem, percebemos o que o levou a regressar ao lugar onde passava férias e a razão para o fazer depois da morte da mulher, como se dessa maneira fechasse um ciclo. 
    Não resisto a transcrever uma frase roubada:
     Sempre tive a convição, resistente a todas as conjeturas racionais, de que num momento impreciso do futuro o contínuo e repetido ensaio que tem sido a minha vida com tantas interpretações falhadas, lapsos e fífias, há-de chegar ao fim e que o verdadeiro drama para o qual me tenho vindo a preparar com maior empenho terá finalmente início. Bem sei que é uma ilusão comum que toda a gente acarinha.
    Ao ler algumas críticas sobre o livro, descobri que já foi adaptado ao cinema, que irei tentar ver:

   

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Uma estranheza em mim, Orhan Pamuk (Editorial Presença)

 
  Apaixonei-me pela obra deste autor através da leitura do Museu da Inocência e, por isso, cada livro de Orhan Pamuk que começo a ler vem carregado de uma enorme expetativa, que o resumo deste, publicado na contracapa, ainda acentuou:
    Mevlut viu-a apenas uma vez e foi o suficiente para se apaixonar. Após três anos de cartas enviadas em segredo, decidem fugir. A escuridão da noite auxilia a fuga mas a luz de um relâmpago revela um engano terrível que os marcará para sempre. Chegados a Istambul, Mevlut decide aceitar o seu destino, seguindo os passos do pai (...)
    A história tem como centro este engano e as consequências que produz na vida das pessoas envolvidas, contudo, ao longo das mais de 600 páginas desta obra, grande parte é gasta a falar das alterações na cidade e na vida daqueles que a habitam, na modificação da paisagem urbana, da mudança dos bairros de casas construídas pelos que ali chegavam, vindos das aldeias, para prédios e arranha-céus. 
    A alteração da fisionomia da capital acompanha a alteração na vida das famílias e a própria economia.
    No meio deste fluxo de alterações Mevlut prossegue a sua vida, passando de vendedor de boza a gerente de loja e a outros trabalhos por conta de outrem, mas mantendo sempre a actividade de vendedor à noite, porque, citando Jean-Jacques Rousseau, só consegue meditar quando caminha.
    Há em Mevlut uma recusa em adoptar a nova cidade e a nova economia, permanecendo de alguma forma - ou pelo menos aos olhos dos outros - um campónio, apesar de já viver há várias décadas em Istambul. Talvez a resignação seja a característica mais marcante de Mevlut, o que o leva a aceitar o engano que esteve na origem do seu casamento com Rayiha e a ser feliz. Genuinamente feliz. 
    Gostei muito da forma como o livro está construído, por períodos temporais, que não estão ordenados cronologicamente, bem como da participação das várias personagens como narradores, dando-nos perspectivas diferentes sobre os vários acontecimentos. O peso excessivo das descrições das alterações na cidade e nas zonas limítrofes, poderá tornar o livro particularmente interessante para os seus habitantes, que reconhecerão muitas das zonas e das transformações nele mencionadas, mas tornam-no maçudo para os restantes leitores.
    Apesar disso, e sobretudo pela história de Mevlut, um livro a não perder.