Prémio Nobel da Literatura 2017

Prémio Nobel da Literatura 2017

Kazuo Ishiguro

autor, entre outros, de Os despojos do dia e Nunca me deixes


quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Era tudo tão bom, Linda Grant (Civilização Editora)

 
    Não gosto de escrever críticas de livros que não terminei, porque nunca se sabe quando há uma qualquer reviravolta na história que nos surpreende ou agarra. Mas já ia a meio deste livro e... não estava a funcionar entre nós. Foi um relacionamento a que tive pôr fim.
    Se tardei a desistir (quase dois meses, o que, já de si, é demasiado tempo para um livro tão pequeno), foi porque a história de fundo parecia muito interessante  e eu queria desvendá-la. Só que já vou sabendo identificar os estilos que gosto e, muito para lá da história, aprecio um livro bem escrito, bem construído e cuja escrita seja bonita - mesmo quando sobre temas feios. Não encontrei isso aqui.
    Já tinha lido um livro da Linda Grant, Vidas Entrelaçadas, e lembro-me que gostei bastante. Esse foi outro motivo para tentar manter a chama da leitura. Mas, de facto, a forma como este romance está escrito não me cativou. Não vi passagens bonitas, achei o enredo confuso e, acima de tudo, desorganizado. Parecia que, de vez em quando, a autora se lembrava de uma passagem que queria incluir e incluía-a, mesmo que não houvesse fio condutor estre o parágrafo anterior e o novo.
    Por fim, também me deu ideia que a tradução não era das melhores - outra coisa com que, sim, eu costumo implicar.
    Por isso, desisti. E, contra o que é habitual, decidi, ainda assim, fazer a crítica do que li. A verdade é que "...Pus-me a contar os livros que há para ler e os anos que terei de vida. Não chegam, não duro nem para metade da livraria". E a vida passa demasiado rápido para se perder tempo com livros que não nos cativam.
    Venha o próximo.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Cuidar dos vivos, Maylis de Kerangel (Teodolito)


  Este livro foi-me emprestado por um amigo, que o recomendou vivamente, e a leitura, desde que comecei a lê-lo, foi quase obsessiva. Qualquer minuto que dispunha, pegava nele para voltar a embrenhar-me na história. A última página sempre marcada. Um livro que nos abala e faz sofrer enormemente e por isso surpreende como não conseguimos parar de o ler. Abandonar a leitura. Interromper quando custa tanto ler:
 (...) bruscamente vê passando diante de si, o pai e a mãe, os pais do paciente do quarto sete, esse jovem ao qual colocou uma sonda esta tarde, aquele que está morto e que terá os órgãos retirados esta noite, são eles; segue com o olhar a sua marcha lenta até às altas portas de vidro, encosta-se a um pilar para os ver melhor: a esta hora as vidraças transformaram-se em espelho, eles refletem-se nelas como os fantasmas se refletem na superfície dos lagos nas noites de Inverno; são a sombra de si mesmos, dir-se-ia para os descrever, revelando a banalidade da expressão menos a desagregação interior desse casal do que sublinhando o que eram ainda esta manhã, um homem e uma mulher de pé diante do mundo, e, ao vê-los caminhar no soalho lacado de uma luz fria, qualquer um poderia entender que doravante aqueles dois prosseguiam a trajetória iniciada algumas horas antes, já não viviam exatamente no mundo de Cordélia e dos outros habitantes da Terra, antes se afastavam efetivamente dele, ausentavam-se, e deslocavam-se para um outro domínio, que era talvez aquele onde sobreviviam durante algum tempo, juntos e inconsoláveis, aqueles que tinham perdido um filho. (...)
    O livro é de um sofrimento atroz, sem atenuantes, na primeira parte. A notícia da morte do filho, a incompreensão da morte quando o coração ainda bate e o peito  se eleva com o ar que nele penetra. A autorização do transplante do coração, dos pulmões, do fígado e dos rins, e a recusa do transplante dos olhos. O pedido para sussurrar-lhe ao ouvido, antes de desligarem as máquinas, os seus nomes, bem como o da irmã e da namorada. O sofrimento que é também partilhado pelos médicos e enfermeiros. E por quem o lê e se imagina a passar por aquilo. O que faria, o que diria.
    Retirados os órgãos, fugiam para outros corpos. Acompanhamos o coração. E a segunda parte, que se lê muito bem, não tem a densidade da primeira, talvez porque esperássemos uma qualquer justificação para aquela morte inicial, para o sofrimento causado. Ou até um sinal que algo permanecia para além daquele emaranhado de veias, artérias e sangue. E parece pouco, que soubéssemos apenas do coração e já não dos restantes órgãos. E não soubéssemos sequer como irá acordar  Claire, a recetora do coração. O livro acaba cedo de mais, pareceu-me.
    Do princípio ao fim, o livro está muito bem escrito, parece que as frases se encadeiam e articulam de forma a dar-nos as personagens, os seus sentimentos, os lugares por onde passam, do que se lembram, o que foram e o que são.

    Após a leitura, descobri que foi adaptado ao cinema, com o mesmo título em português, Cuidar dos vivos. Realizado Katell Quillévéré, foi exibido em festivais e recebeu vários prémios (César Awards, France 2017 – Nomeação Best Adapted Screenplay, Toronto International Film Festival 2016 – Nomeação Platform Prize, Valladolid International Film Festival 2016 – Nomeação Golden Spike, Best FilmVenice Film Festival 2016 – Nomeação Venice Horizons Award Best Film).

domingo, 18 de fevereiro de 2018

O último dia dum condenado, Victor Hugo (Portugália Editora)

   Tive oportunidade de ver recentemente a adaptação ao teatro de "O último dia de um condenado", de Victor Hugo, encenado por Paulo Sousa Costa e interpretado por Virgílio Castelo.

     Já tinha lido este livro há muitos anos, quando estudava, e decidi relê-lo, sobretudo porque a peça não suscitou em mim a emoção, a intranquilidade que recordava ter sentido aquando da leitura da obra. Confesso que não gostei de algumas opções da encenação /interpretação, sobretudo do facto de o ator - embora muito pontualmente - assumir também o papel do interlocutor, inclusive o da  filha pequena que o visita. Penso que é uma opção que não resulta, estragando a intensidade do drama que a personagem vive, especialmente naquele momento.

    O livro é um libelo contra a pena de morte. Victor Hugo era opositor à aplicação desta pena e este livro, publicado em 1829, destinava-se justamente a questionar a sua aplicação. O livro escrito na primeira pessoa, por um condenado à morte, assume claramente este objetivo:
    "Será que a leitura deste meu texto lhes poderá tornar a mão menos rápida quando algum dia estiver em jogo, naquilo a que eles chamam balança da justiça, uma cabeça que pensa, uma cabeça humana? Será que eles nunca terão refletido, os infelizes, na lenta sucessão de torturas que uma sentença de morte contém? Será que alguma vez se detiveram pensando na dolorosa ideia de que no homem que condenam existe uma inteligência, uma inteligência que contava viver, uma alma que não estava preparada para a morte?
(...)
    Estas folhas desenganá-los-ão. Talvez que um dia, publicadas, façam deter o seu espírito sobre os sofrimentos que eles não imaginam, os sofrimentos do espírito."

    Gostei de reler o livro, mas é um livro muito datado e que se encontra de forma evidente subordinado ao desígnio do autor, pelo que é totalmente centrado na angústia da antecipação da morte, ignorando a questão, que me parece inevitável que também fosse aflorada, do que vem a seguir à morte. Há apenas o receio físico da morte. A omissão do crime praticado é, suponho, intencional, para evitar que em função disso, tivéssemos simpatia ou não pelo condenado, contudo, a inexistência de qualquer reflexão sobre o crime, sobre a culpa e sobre a justiça da pena também nos distanciam da obra.
    Lugar central na história é ocupado pelo povo que anseia e assiste à aplicação da pena de morte, como de resto, antes, o condenado assistiu à partida para o degredo de outros condenados.
   
    Sabendo que Portugal foi o primeiro país europeu a abolir a pena de morte - comemora-se este ano 150 anos - fiquei absolutamente surpreendida ao descobrir que a pena de morte foi abolida em França apenas em 1981. Até esse ano ainda era aplicada a pena de morte e o método permanecia a decapitação com a guilhotina que foi usada pela última vez em 1977. E ainda no século XX, até 1939, a execução com guilhotina  era pública, passando nessa data a ser executada no interior dos estabelecimentos prisionais.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

À espera de Bojangles, Olivier Bourdeaut (Ed. Guerrae Paz) versão francesa (ed. Folio)

  
    Em junho do ano passado participei como voluntária na Noite Europeia da Literatura. Nessa qualidade, não tive oportunidade de assistir a todas as leituras que foram feitas. Mas entre as que vi, destacou-se a leitura deste livro, En attendant Bojangles, de Olivier Bourdeaut, por Ana Sofia Paiva, no Museu Arqueológico do Carmo. Foi um momento mágico. Não sei se foi do espaço, da leitura ou da música, mas foi um momento que não esquecerei.
    Não sabia que o livro já estava traduzido para português - À espera de Bojangles, Editora Guerra e Paz - e no final do ano passado comprei a edição de bolso, em francês.
   
    Leia-se o livro em francês ou em português, deverá ser acompanhado da música Mr. Bojangles, por Nina Simone. Uma e outra vez e sempre que no livro se dançar ao som desta música.

     A história é narrada por uma criança e por excertos do diário do pai. Sabemos no final que foi o pai que escreveu a vida deles, todos os momentos, os bons e os maus, as danças, as mentiras, os risos, os choros, as viagens, os impostos....O pai que alguns anos atrás se apaixonara por uma jovem mulher, num retiro de trabalho. Ela já evidenciava uma certa dose de loucura, mas isso torna-a mais atraente para ele, que cede a todos os seus caprichos. Todos os dias ele dá-lhe um nome novo e ela adapta-se à personalidade que o nome lhe confere. Mais tarde têm um filho que partilha com os pais aquela vivência fora do comum, mas totalmente apaixonante. A mãe acaba por o retirar da escola por não aceitar que lhe queiram corrigir a escrita e que não compreendam a importância de ele faltar às aulas para passear.
  
    O livro podia ter ficado por aqui, pelo elogia da loucura, pela descrição do casal apaixonado a dançar, pelos jantares e pelas festas que davam, pela felicidade do filho, mas sentimos desde o início que não será assim. A loucura da mãe vai-se agravando, comprometendo a vida em comum, e depois de um período de internamento, pai e filho ajudam-na a fugir e recuperam temporariamente a vida feliz que já tinham tido.
    Um livro muito bonito, sobre o amor imenso de um homem por uma mulher, testemunhado pelo filho de ambos, mas também sobre o fascínio que a loucura exerce sobre a vida de todos os dias, sem nunca cair no facilitismo ou nos lugares comuns.

domingo, 28 de janeiro de 2018

O Barão, Branquinho da Fonseca (Relógio D' Água)

    Depois de todas as dúvidas suscitadas pelo cartaz afixado na Livraria Galileu, em Cascais, tinha que ler o livro. Começo por confessar o meu desapontamento, que resultou porventura da imensa expetativa que tinha antes de iniciar a sua leitura. Não só pela história criada à volta do filme, mas também em consequência da leitura do prefácio. 
    David Mourão Ferreira conta como num curso de literatura portuguesa para estrangeiros, das várias obras apresentadas, de diversos autores portugueses, esta foi a única que reuniu o consenso e o entusiasmo dos participantes.
    A história é de uma extrema simplicidade em termos de personagens e de tempo. Decorre praticamente numa noite e envolve sobretudo duas personagens, o Barão e um inspetor de escolas que, ali chegado, é convidado a pernoitar em casa do Barão.
    O Barão, que alguns comparam ao Drácula, outros a um senhor feudal, é uma daquelas personagens excêntricas, autoritária e ao mesmo tempo atraente, que arrasta o inspetor durante essa noite. Uma espécie de buraco negro, uma espiral de onde o pacato e burocrático inspetor não consegue escapar.
    Há pessoas assim, que podem surgir nas nossas vidas sem mais nem menos, que nos atraem pela loucura que carregam mas que, simultaneamente, nos repelem pelo medo de as seguir. De nos tornarmos como eles. Uma espécie de tornado do qual nos pode ser difícil escapar. O Barão é uma destas pessoas e o livro é o encontro entre estas duas personagens tão distintas e a inevitável submissão do inspetor ao Barão. As personalidades das duas personagens são extremadas na sua apresentação e no seu comportamento, terminando por haver cumplicidade entre ambos quando os dois estão bêbedos.
   O livro permite várias leituras, sobretudo tendo presente a época que se vivia então em Portugal. É uma obra muito curta o que é de assinalar porque são poucos os livros desta dimensão que perduram no tempo.
    Uma palavra final para a capa que, embora cuidada, me pareceu ter pouco a ver com a história. Capas de outras edições pareceram-me mais sugestivas e por isso mais adequadas. 
    

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Homens sem mulheres, Haruki Murakami (Casa das Letras)

    Se os dois últimos livros que li fizessem parte de uma ementa, este seria a sobremesa. Uma sobremesa ligeira, agradável, simples, com um toque exótico. Já o anterior, A guerra do fim do mundo, seria o prato principal. Um prato cheio, bem temperado e com acompanhamento. Nem melhor, nem pior, diferentes os dois. E nada me podia saber melhor depois da leitura de A guerra do fim do mundo, cheia de personagens, narradores distintos, histórias dentro da história, que a simplicidade deste livro Homens sem mulheres. 
    O livro tem 7 contos todos sobre homens sós e a sofrerem com a solidão:
    "Todavia, ao recordar a época em que eu tinha vinte anos, o que vem à tona é a minha solidão. Não tinha namorada para me aquecer o corpo e o coração, nem um amigo no qual pudesse confiar. Não sabia o que fazer dos meus dias, era incapaz de imaginar o que o futuro me reservava. Estava sempre fechado na minha concha, ao ponto de passar uma semana sem falar com ninguém. Essa fase durou um ano. Foi um longo ano. (...)
    Apesar do fascínio exercido pelas mulheres e do desejo omnipresente, é evidente alguma misoginia nas diversas histórias: "Estava convencido de que todas as mulheres nascem com um órgão independente, concebido para mentir. Quanto ao tipo de mentiras, em que circunstâncias mentem e como o fazem, varia de mulher para mulher. (...)" 
    Mas se as histórias são todas diferentes, e em todas ser uma constante a procura, a espera ou a perda da mulher, o que ressalta é a imensa, enorme solidão dos homens protagonistas de cada uma delas:
    "Um belo dia, quando menos esperar, o leitor vai ser um dos homens sem mulheres. Esse dia chegará de repente, sem apelo nem agravo, sem premonições nem pressentimentos, sem um toque na porta nem uma tossidela de aviso. Ao virar da esquina, vai descobrir que já está ali, mas não poderá fazer marcha-atrás. Mal dobrar a esquina, aquele passa a ser o seu mundo. Nesse mundo, encontrar-se-á no meio dos "homens sem mulheres". Num plural infinitamente gélido."
    Gostei de descobrir este autor e estas histórias.

    Curiosamente, quando lia este livro, ouvi a reportagem da TSF sobre o Japão, o país mais envelhecido do mundo. A reportagem "Casa comigo", de Dora Pires, falava do número crescente de homens no Japão que preferem viver sós, da diminuição do número de casamentos e de filhos, falando até num fenómeno - ainda raro - de casamentos sem noivo.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

A Guerra do Fim do Mundo, Mario Vargas Llosa (Livros RTP)


     A guerra do fim do mundo foi mesmo uma guerra e, pela  descrição do que se passou, parece absolutamente adequada a designação. Eu nunca tinha ouvido falar desta guerra. Comprei o livro atraída pelo resumo na contracapa que começa assim:
    "Em finais do século XIX, no Brasil, no sertão da Baía, um vasto movimento popular formado em torno de um místico - António Conselheiro - funda uma sociedade à margem do mundo oficial. O Governo do Rio de Janeiro reage, enviando uma pequena força militar para "repor a ordem". Mas a resistência foi imediata e eficaz, obrigando a tropa a fugir...."
    Lido o livro, as suas 620 páginas, tenho que dizer que é um livro fascinante, quer pela história que narra, quer pela forma como o faz. Quanto à história, que é, ainda hoje, um episódio importante da história brasileira, não surpreende o impacto que teve e ainda tem. Para além de integrar o currículo da disciplina de história no Brasil, deu origem a uma extensa bibliografia e cinematografia.
    O livro Os Sertões, publicado em 1902, de Euclides da Cunha, um jornalista que cobriu esta guerra como correspondente do jornal O Estado de S. Paulo, fascinou Mario Vargas Llosa e outros autores que escreveram livros sobre esta guerra, como Sándor Márai, - Veredicto em Canudos -, que depois de o ler disse que era como se tivesse estado no Brasil.

     A guerra do fim do mundo acontece em Canudos, no interior da Bahia, no nordeste brasileiro. Uma região que, à época, se caracterizava por enormes latifúndios e onde se vivia uma situação de grande pobreza e desemprego. No país tinha sido recentemente abolida a escravatura e proclamada a república. A situação a nível nacional e regional constituiu terreno fértil para que um indivíduo, o Conselheiro, conseguisse atrair milhares de pessoas, pobres, miseráveis, que o seguiram e se foram fixando em Canudos:
   (...) O Conselheiro explicou, sem animosidade, o que acontecia. (...) Exaltando-se, intimou-os a não se renderem aos inimigos da religião, que queriam mandar de novo os escravos para os cepos, esmifrar os moradores com impostos, impedi-los de se casarem e serem enterrados pela Igreja, e confundi-los com armadilhas como o sistema métrico, o mapa estatístico e o recenseamento, cujo verdadeiro desígnio era enganá-los e fazê-los pecar. (...)
    Mas a sociedade que começaram a construir em Canudos era diferente de tudo o resto:
    (...) Podia ter qualquer coisa de primitivo, ingénuo, contaminado de superstição, mas não havia dúvida: era também algo de diferente. Uma cidade libertária, sem dinheiro, sem donos, sem polícias, sem padres, sem banqueiros, sem fazendeiros, um mundo construído com a fé e o sangue dos mais pobres. (...)
    E é esta incongruência total que gera um conjunto de equívocos e receios, que são aproveitados por forças politicas nacionais, a que os habitantes de Canudos são totalmente alheios e que ignoram até, que leva a república a decidir combatê-los e derrotá-los:
    (...) Não é absurdo?  Vão ser sacrificados como monárquicos e anglófilos, eles, que confundem o imperador Pedro II com um dos apóstolos, que não fazem a menor ideia de onde fica a Inglaterra e que esperam que o rei Dom Sebastião saia do fundo do mar para os defender. (...)
    E foram de facto massacrados todos os habitantes de Canudos e as casas destruídas. Mas não foi fácil. Ofereceram uma resistência inesperada ao exército tendo havido necessidade de quatro expedições contra estas pessoas que combatiam com pedras, fisgas, facas e as armas que eram roubadas aos militares que matavam.
    Mas se a história justifica por si só a atenção que lhe tem sido dada ao longo dos tempos, a mestria com que é relatada é inegável. Vamos conhecendo-a através de diferentes pessoas, com abordagens e perspetivas distintas, e vamos seguindo a leitura pela necessidade imperiosa, fundamental de conhecer os respetivos destinos. Quando acabamos o livro, não fica apenas a história, mas as personagens, como Jurema, o Anão, o Leão de Natuba, a Maria Quadrado. Uma imensa galeria de personagens que conseguimos quase vislumbrar.