Prémio Nobel da Literatura 2017

Prémio Nobel da Literatura 2017

Kazuo Ishiguro

autor, entre outros, de Os despojos do dia e Nunca me deixes


quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Homens sem mulheres, Haruki Murakami (Casa das Letras)

    Se os dois últimos livros que li fizessem parte de uma ementa, este seria a sobremesa. Uma sobremesa ligeira, agradável, simples, com um toque exótico. Já o anterior, A guerra do fim do mundo, seria o prato principal. Um prato cheio, bem temperado e com acompanhamento. Nem melhor, nem pior, diferentes os dois. E nada me podia saber melhor depois da leitura de A guerra do fim do mundo, cheia de personagens, narradores distintos, histórias dentro da história, que a simplicidade deste livro Homens sem mulheres. 
    O livro tem 7 contos todos sobre homens sós e a sofrerem com a solidão:
    "Todavia, ao recordar a época em que eu tinha vinte anos, o que vem à tona é a minha solidão. Não tinha namorada para me aquecer o corpo e o coração, nem um amigo no qual pudesse confiar. Não sabia o que fazer dos meus dias, era incapaz de imaginar o que o futuro me reservava. Estava sempre fechado na minha concha, ao ponto de passar uma semana sem falar com ninguém. Essa fase durou um ano. Foi um longo ano. (...)
    Apesar do fascínio exercido pelas mulheres e do desejo omnipresente, é evidente alguma misoginia nas diversas histórias: "Estava convencido de que todas as mulheres nascem com um órgão independente, concebido para mentir. Quanto ao tipo de mentiras, em que circunstâncias mentem e como o fazem, varia de mulher para mulher. (...)" 
    Mas se as histórias são todas diferentes, e em todas ser uma constante a procura, a espera ou a perda da mulher, o que ressalta é a imensa, enorme solidão dos homens protagonistas de cada uma delas:
    "Um belo dia, quando menos esperar, o leitor vai ser um dos homens sem mulheres. Esse dia chegará de repente, sem apelo nem agravo, sem premonições nem pressentimentos, sem um toque na porta nem uma tossidela de aviso. Ao virar da esquina, vai descobrir que já está ali, mas não poderá fazer marcha-atrás. Mal dobrar a esquina, aquele passa a ser o seu mundo. Nesse mundo, encontrar-se-á no meio dos "homens sem mulheres". Num plural infinitamente gélido."
    Gostei de descobrir este autor e estas histórias.

    Curiosamente, quando lia este livro, ouvi a reportagem da TSF sobre o Japão, o país mais envelhecido do mundo. A reportagem "Casa comigo", de Dora Pires, falava do número crescente de homens no Japão que preferem viver sós, da diminuição do número de casamentos e de filhos, falando até num fenómeno - ainda raro - de casamentos sem noivo.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

A Guerra do Fim do Mundo, Mario Vargas Llosa (Livros RTP)


     A guerra do fim do mundo foi mesmo uma guerra e, pela  descrição do que se passou, parece absolutamente adequada a designação. Eu nunca tinha ouvido falar desta guerra. Comprei o livro atraída pelo resumo na contracapa que começa assim:
    "Em finais do século XIX, no Brasil, no sertão da Baía, um vasto movimento popular formado em torno de um místico - António Conselheiro - funda uma sociedade à margem do mundo oficial. O Governo do Rio de Janeiro reage, enviando uma pequena força militar para "repor a ordem". Mas a resistência foi imediata e eficaz, obrigando a tropa a fugir...."
    Lido o livro, as suas 620 páginas, tenho que dizer que é um livro fascinante, quer pela história que narra, quer pela forma como o faz. Quanto à história, que é, ainda hoje, um episódio importante da história brasileira, não surpreende o impacto que teve e ainda tem. Para além de integrar o currículo da disciplina de história no Brasil, deu origem a uma extensa bibliografia e cinematografia.
    O livro Os Sertões, publicado em 1902, de Euclides da Cunha, um jornalista que cobriu esta guerra como correspondente do jornal O Estado de S. Paulo, fascinou Mario Vargas Llosa e outros autores que escreveram livros sobre esta guerra, como Sándor Márai, - Veredicto em Canudos -, que depois de o ler disse que era como se tivesse estado no Brasil.

     A guerra do fim do mundo acontece em Canudos, no interior da Bahia, no nordeste brasileiro. Uma região que, à época, se caracterizava por enormes latifúndios e onde se vivia uma situação de grande pobreza e desemprego. No país tinha sido recentemente abolida a escravatura e proclamada a república. A situação a nível nacional e regional constituiu terreno fértil para que um indivíduo, o Conselheiro, conseguisse atrair milhares de pessoas, pobres, miseráveis, que o seguiram e se foram fixando em Canudos:
   (...) O Conselheiro explicou, sem animosidade, o que acontecia. (...) Exaltando-se, intimou-os a não se renderem aos inimigos da religião, que queriam mandar de novo os escravos para os cepos, esmifrar os moradores com impostos, impedi-los de se casarem e serem enterrados pela Igreja, e confundi-los com armadilhas como o sistema métrico, o mapa estatístico e o recenseamento, cujo verdadeiro desígnio era enganá-los e fazê-los pecar. (...)
    Mas a sociedade que começaram a construir em Canudos era diferente de tudo o resto:
    (...) Podia ter qualquer coisa de primitivo, ingénuo, contaminado de superstição, mas não havia dúvida: era também algo de diferente. Uma cidade libertária, sem dinheiro, sem donos, sem polícias, sem padres, sem banqueiros, sem fazendeiros, um mundo construído com a fé e o sangue dos mais pobres. (...)
    E é esta incongruência total que gera um conjunto de equívocos e receios, que são aproveitados por forças politicas nacionais, a que os habitantes de Canudos são totalmente alheios e que ignoram até, que leva a república a decidir combatê-los e derrotá-los:
    (...) Não é absurdo?  Vão ser sacrificados como monárquicos e anglófilos, eles, que confundem o imperador Pedro II com um dos apóstolos, que não fazem a menor ideia de onde fica a Inglaterra e que esperam que o rei Dom Sebastião saia do fundo do mar para os defender. (...)
    E foram de facto massacrados todos os habitantes de Canudos e as casas destruídas. Mas não foi fácil. Ofereceram uma resistência inesperada ao exército tendo havido necessidade de quatro expedições contra estas pessoas que combatiam com pedras, fisgas, facas e as armas que eram roubadas aos militares que matavam.
    Mas se a história justifica por si só a atenção que lhe tem sido dada ao longo dos tempos, a mestria com que é relatada é inegável. Vamos conhecendo-a através de diferentes pessoas, com abordagens e perspetivas distintas, e vamos seguindo a leitura pela necessidade imperiosa, fundamental de conhecer os respetivos destinos. Quando acabamos o livro, não fica apenas a história, mas as personagens, como Jurema, o Anão, o Leão de Natuba, a Maria Quadrado. Uma imensa galeria de personagens que conseguimos quase vislumbrar.

domingo, 7 de janeiro de 2018

Anna Karénina, Lev Tolstoi (Relógio D'Água)

    Comecei este romance no final do verão de 2017 e terminei-o na manhã de 1 de janeiro deste novo ano. Demasiado tempo para mim, sobretudo considerando que, (em teoria) só demoro a ler livros que não me mantêm interessada. Não foi o caso. Este livro é muito bom e, sem dúvida, deve ser lido. Mas é enorme. E refiro-me mesmo à parte física; como a maior parte do meu tempo de leitura acontece nos transportes, um livro tão grande e pesado traz alguns problemas de logística. Por isso, arrastei a leitura; mas cada vez que a retomava, queria continuar.
    Pensei que houvesse já uma revisão feita, aqui no blogue, mas aparentemente o livro foi lido pela minha mãe em 2009 - antes de o termos iniciado.
   Antes de começar a ler tinha já uma ideia dos traços gerais da história de Anna Karénina, por ser o clássico de literatura que é e porque já tinha visto o filme em 2012 (cujo momento alto foi quando uma rapariga atrás de nós comentou, preocupada "Mau...queres ver que isto ainda vai acabar mal?"). Como é habitual, o livro é muito mais rico em detalhes. O que estranhei foi que, para mim, Anna não é a figura central do romance. O desenrolar do seu drama é-nos mostrado em curtos retalhos que surgem esporadicamente entre outras histórias, particularmente a de Lévin e Kiti.

   O romance começa com uma disputa entre o irmão de Anna e a sua mulher, Dolli, e Anna é chamada para apoiar na sua reconciliação. Por essa altura, a irmã de Dolli, Kiti, recebe as atenções do Conde Vronski e pensa que, em breve, ele a pedirá em casamento. Por isso, quando Lévin aparece na cidade, depois de muitos meses no campo a tomar coragem para pedir a mão de Kiti, esta recusa-o, ainda que com muita pena, pois tem-lhe muito carinho. Mas Vronski esquece Kiti quando conhece Anna e é como se uma força maior os atraísse um para o outro, por mais que Anna procure libertar-se (Ele dissera precisamente aquilo que a alma dela desejava mas que a sua razão temia), uma vez que é casada e tem um filho do qual não se imagina abdicar.
    E, portanto, muitas vidas começam por ser como que destruídas por esta inevitável união. A antecipação de uma possível desgraça começa cedo, no leitor, alertado por Betsi quando esta diz a Anna:
    Está a ver, uma mesma coisa pode ser olhada tragicamente e fazer dela um tormento, e pode-se olhá-la com simplicidade e até com alegria. Talvez a sua tendência seja olhar para as coisas demasiado tragicamente.
    
  No entanto, como comentei acima, não entendo Anna como a personagem central, ainda que seja a mais trágica. Diria até que, para mim, a personagem principal é Lévin, com a sua incessante procura pelo significado da vida e da justiça, do trabalho e da virtude. E é dele que vem uma das minhas passagens favoritas do livro:

    (...) não apenas o orgulho da razão. Mas também a estupidez da razão. E acima de tudo a velhacaria, precisamente a velhacaria da razão. Precisamente a trapaça da razão.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Livraria Galileu, Cascais

    O pretexto foi comer um gelado Santini, em Cascais. A abertura de gelatarias Santini em Lisboa e em Carcavelos levou  a que praticamente deixássemos de ir a Cascais. Hoje o Alexandre propôs que fôssemos a Cascais comer um gelado Santini e passear. Depois de descobrirmos que a gelataria Santini a que habitualmente íamos - na Av. Valbom - estava fechada, descobrimos que havia uma segunda gelataria, a que fomos, mas antes passámos, como era costume, pela Livraria Galileu. Esta Livraria comemorou este mês 45 anos. Abriu em 1972 e como refere na sua página Hoje confrontada com um mercado dominado por Golias sediados nas grandes superfícies, a Galileu continua a perseguir o sonho que lhe deu vida: uma livraria - generalista embora - orientada para aquele nicho de mercado que prefere a qualidade e a raridade à espuma passageira do best seller.

    Sempre que passo por lá descubro qualquer livro ou uma história sobre livros. Foi o caso de hoje
   Na montra estava um cartaz sobre O Barão que contava a história do filme feito tendo por base o livro homónimo de Branquinho da Fonseca. Dizia então que em 1943, a produtora americana Valerie Lewton chegou a Portugal e casou-se com um actor português que lhe deu a conhecer o conto "O Barão". A produtora pensou que daria a história perfeita para um filme de terror, começando, em segredo, as filmagens numa fábrica do Barreiro. A PIDE soube da existência do filme e mandou destruir os negativos. A equipa técnica foi repatriada e os actores portugueses deportados para o Tarrafal, onde morreram torturados.
    Em 2005, foram descobertas duas bobinas e o guião do filme nos arquivos do cineclube do Barreiro e através delas o realizador Edgar Pêra decidiu fazer o "remake" do filme original.

    Nunca tinha ouvido falar deste episódio, que suscita, naturalmente, imensa curiosidade. Comprei o livro - uma edição comemorativa do filme de Edgar Pêra - e irei tentar ver o filme depois de o ler e averiguar da veracidade daquela história. Ou será que não vale a pena e é melhor deixar que esta história que carrega - verdadeira ou não - adense ainda mais a história e a personagem do Barão?

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Ler no comboio



 Um dos meus sítios preferidos para ler é o comboio. São quase vinte minutos para ir e outros tantos para regressar. Confesso que já houve ocasiões em que mantive os olhos baixos e ignorei conhecidos para não perder o prazer destes minutos de leitura. Já perdi manhãs de nevoeiro, com Lisboa desaparecida em nuvens de onde emergia apenas a ponte, um dos seus pilares ou o Cristo Rei. Já perdi manhãs com o sol reflectido no rio Tejo e entardeceres perfeitos em troca de mais algumas páginas de um livro.
Por vezes de manhã, não há lugares sentados na carruagem, mas mesmo nestas circunstâncias, há quem não abdique de ler. Nalguns casos, a leitura é do jornal distribuído gratuitamente na estação, cada vez com mais frequência é do telemóvel, mas mantém-se um número razoável de passageiros frequentes de livros. 
Quando me esqueço de levar o livro que estou a ler, entretenho-me a espreitar o que os outros lêem e, mais recentemente, a fotografar quem lê.

Já me aconteceu encontrar no comboio amigas e falarmos de livros ou de outra coisa qualquer. Mas o melhor mesmo de viver na linha e ir de comboio para o trabalho são aqueles 40 minutos diários (20 para lá  e 20 para cá) de leitura. É bom começar o dia assim.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Nós matámos o Cão-Tinhoso, Luís Bernardo Honwana

 
  
   O que fazer quando perdemos o livro que estamos a ler?
    Estive há um mês em Maputo e fui a algumas livrarias à procura de livros da Paulina Chiziane. Tinha falado desta autora  a duas colegas brasileiras que ficaram interessadas, mas não conseguimos encontrar nenhum livro porque, segundo nos disseram, tinham muita procura e esgotavam rapidamente.
    Procurei por outros autores moçambicanos e falaram-me de Luís Bernardo Honwana, que há mais de 50 anos escreveu o livro Nós matámos o Cão-Tinhoso e que agora publicou um novo livro A velha casa de madeira e de zinco. Lembrava-me de ter ouvido falar do primeiro livro dele embora nunca o tivesse lido e decidi comprá-lo. Dos sete contos, li apenas o primeiro que dá justamente o nome ao livro e depois perdi-o. Sei que há edições portuguesas e que não deve ser difícil encontrá-lo, até porque integra o Plano Nacional de Leitura. Mas eu queria mesmo era aquele livro, aquela edição.

    É fácil perceber a perenidade ou, pelo menos, a longevidade deste livro. A edição moçambicana tinha um prefácio e uma lista extensa de bibliografia publicada sobre o livro, em particular sobre este conto. Depois de concluir a leitura li alguns artigos publicados sobre esta obra e o seu autor. A história é simples: o narrador, Ginho, conta como mataram o cão tinhoso. O cão que, para além de tinhoso, era velho, decrépito e fazia barulho com os ossos quando andava, tinha olhos azuis. Já ninguém - nem mesmo os outros cães - lhe ligava, apenas Isaura, que não era muito boa da cabeça, o protegia e o alimentava. Um dia o administrador fala com o veterinário para que o mande abater e ele diz a um grupo de miúdos para matarem o cão tinhoso. Há quem veja no cão tinhoso o país colonizador, Portugal, que no final é abatido por todos. Tenho alguma dificuldade em partilhar este entendimento. O cão tinhoso é quanto muito o país colonizado, Moçambique. Então sofrido e maltratado.
   Mas eu penso que o mais significativo no livro é a relação entre os jovens, o domínio de Quim sobre os demais, que resulta das respetivas raças:
 (— Deixa lá, é preto e basta, deixa lá... Bem, malta, o cão não sai daqui e a gente vai cada um para a sua casa buscar as armas e depois levamo-lo para a mata atrás do matadouro e damos cabo dele, óquêi?
(...) 
— Fora daqui, negralhada, fora daqui cabroada escura!Isso era o teu avô, meu labreguinho ordinário! Nunca te contaram isso lá na tua aldeia? Seu maguerre!...
— Monhé! Filho de um corno!
— Eu estou com medo — custou-me dizer aquilo porque mais ninguém estava com medo, mas foi melhor assim — Eu estou com medo, Quim...
— Eh, malta, vocês nunca me viram a matar um preto?)
    E por fim, o mais impressionante, é o facto de Quim, o líder, forçar o Ginho, que não quer matar o cão, a dar o primeiro tiro. 
    O livro foi escrito na prisão, mas surpreende sobretudo que tenha sido escrito por alguém muito jovem porque consegue transmitir a imensa angústia de Ginho e de Isaura e o pavor do cão tinhoso perante a morte e o desdém dos restantes perante o medo e  tristeza.

(A capa do livro que perdi era diferente desta. Se alguém o encontrar, espero que o aprecie.)

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Confissões da leoa, Mia Couto (Caminho)

     
    O livro começa assim:
    Deus já foi mulher. Antes de se exilar para longe da sua criação e quando ainda não se chamava Nungu, o atual Senhor do universo parecia-se com todas as mães deste mundo. Nesse outro tempo, falávamos a mesma língua dos mares, da terra e dos céus. O meu avô diz que esse reinado há muito que morreu. Mas resta, algures dentro de nós, memória dessa época longínqua. Sobrevivem  ilusões e certezas que, na nossa aldeia de Kulumani, são passadas de geração em geração. Todos sabemos, por exemplo, que o céu ainda não está acabado. São as mulheres que, desde há milénios, vão tecendo esse infinito véu. Quando os seus ventres se arredondam, uma porção de céu fica acrescentado. Ao inverso, quando perdem um filho, esse pedaço de firmamento volta a definhar.  
    Um início extraordinário que o resto do livro não desmerece. Difícil foi parar de roubar frases, de as saborear. Foi por isso que levei tempo a lê-lo.
    Como o autor explica, este livro tem por base a história real da contratação de caçadores para matarem leões que tinham atacado várias pessoas no norte de Moçambique. Para além da caça, os caçadores tiveram de lidar com a convicção dos locais que os leões eram habitantes do mundo invisível, mas, aos poucos, aperceberam-se que a situação resultava de conflitos sociais  aos quais não podiam acorrer. Arrisco a dizer que a história por trás da história é a denúncia da imensa violência exercida sobre as mulheres. Com uma escrita poética, o que parece quase um paradoxo:
    Porque, a bem ver, nunca cheguei a matar ninguém. Todas essas mulheres já estavam mortas. Não falavam, não pensavam, não amavam, não sonhavam. De que valia viverem se não podiam ser felizes.
(...)
    Foi melhor que essas meninas nunca tivessem crescido. Porque elas só se sentiriam vivas na dor, no sangue, na lágrima. Até que, um dia, de joelhos, pediriam perdão aos seus próprios carrascos.
     O livro é escrito a duas vozes, ou em duas versões, a de Mariamar, jovem mulher da aldeia de Kulumani, a única sobrevivente de quatro irmãs, e a do caçador, Arcanjo Baleiro, que chega a Kulumani acompanhado de um escritor.
    Mas não é apenas em Kulumani que as mulheres sofrem (acordávamos de madrugada como sonolentos soldados e atravessávamos o dia como se a Vida fosse nossa inimiga.), também olhando para a mãe, Arcanjo Baleiro, o caçador, diz que no rosto dela viu a tristeza, a tristeza de toda a humanidade. E é quando  está em Kulumani, que Arcanjo Baleiro descobre como a mãe  morreu e que a morte do pai não foi acidental.
   Não se trata apenas de sofrimento físico das mulheres, mas também das interdições a que estão sujeitas -  não podem entrar na shitalae e muito menos emitir opinião sobre assuntos de gravidade. Uma personagem feminina destaca-se pela ousadia, a primeira-dama, D. Naftalinda, mulher do administrador - que tinha um traseiro que obscurecia o dia, como um súbito eclipse de sol -. Por causa dela, ele que gostava de política, decide voltar a ser professor.
    Confesso que a leitura do livro me abalou. Não sabia que era esta a temática abordada e não estava preparada para a violência relatada, mas é, até por isso, inquestionavelmente, um livro a não perder.

    Acabo com mais uma frase roubada, a propósito da morte do avô de Mariamar:
   Não quiseram que eu estivesse presente. Não para me poupar da despedida. Mas para que essa despedida demorasse a vida inteira.